sábado, 17 de setembro de 2011

Palheiros de Espinho

...
Onde morava a vareira
De "ancas a dar, a dar".
Num canto a dorna, a masseira,
O forno, o lume, o lar!

Cama em chão de areia
E água benta, o terço
Rezado à luz da candeia,
"Menino-Jesus" no berço!

Só me pesa não poder
Recuar e me ser dado
Poder voltar ao passado
Para com Deus eu viver

Na pureza e no carinho
Das nossas gentes de outrora,
Longe dos cheiros de agora,
Num palheirinho de Espinho

(in Minha Terra e Terra dos Meus Avós - Fernanda Miguel)

domingo, 21 de agosto de 2011

À noite, o mar

Só esta aragem pura;
Só este aroma,
Olor da maresia;
Só este som do mar
Em maré-cheia;
Só esse braço quente
Na cintura
E o gosto de sentir,
Ainda, à luz do dia,
O quebranto da onda
Nas areias.

Edgar Carneiro, Mar Amar - Poemas do Mar de Espinho

domingo, 31 de julho de 2011

Saudades

Palavras fora da boca,
São pedras fora da mão.
Abençoadas pedradas
Que as tuas falas me dão!

As tuas palavras
São tão maviosas,
Que sabem a frutos
E cheiram a rosas!

Eu não compreendo a saudade
Que eternamente em mim vive...
Saudades que tem saudade
De saudades que eu já tive!...

Saudades das ondas
Que ao longe morreram...
Saudades dos beijos
Que nunca se deram.

Musica - Fausto Neves
Poesia - Carlos de Moraes
Cançoes da Beira-Mar 1931

(dedicado à sua esposa)

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Vareira (Cançao de Espinho)


Minha linda vareirinha, tão vaidosa...
Quem te fez assim tão linda, minha rosa?!
Ai certamente o mar dolente sobre a areia,
Foi quem te deu toda essa graça de sereia!

Vareira...
Santa da minha fé!
- não dês ao lindo pé
...dessa maneira!

Tu dás ao pe desse jeito, para que o vejam...
E olha as ondas gostam tanto que até o beijam!
Ai certamente o mar dolente ó vareirinha,
Foi quem te deu toda essa graça de andorinha!

Vareira...
Santa da minha fé!
- não dês ao lindo pé
...dessa maneira!

Se não fora o teu encanto permanente,
Nem o mar valia tanto, certamente!
Vendo o teu corpo airoso e lindo, as próprias ondas
Sao mais coquettes, mais perfeitas, mais redondas!...

Vareira...
Santa da minha fé!
- não dês ao lindo pé
...dessa maneira!


musica - Fausto Neves
letra - Carlos de Moraes
(dedicado a Maria Fernanda Pinheiro de Morais)

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Amar Espinho


Espinho te queremos tanto
Tu sabes dar amizade
Tu és terra de encanto
De amor e de saudade

Espinho és uma flor
Nascida à beira-mar
Desabrochando, dá amor
Que as pétalas nos vêm dar.

Gosto de ti, é verdade
Porque havia de negar
A minha grande vontade
Era um dia te beijar.

Tanto amor em ti cintila
Espinho linda cidade
Foste lugar, foste vila
E chegaste a cidade.

Ai como é bom amar
Também é bom ser amado
Senão é como nadar
Em cima do mar coalhado

Às vezes fico a pensar
Como há tanta crueldade
Que queria poder acabar
Para nascer a amizade.

(do poeta espinhense José Hermínio)

quarta-feira, 25 de maio de 2011

rosa Vareira


A lavar e a estender
Deitei a roupa a corar,
Meu amor é pescador,
Pesca peixinhos no mar.

Enche o mar, vasa a maré,
Fica a praia no deserto;
Vai-se um amor, fica outro,
Não ha ditado mais certo.

Vós chamais-me vareirinha,
Eu gosto de vareirar,
Eu sou vareira de Espinho,
Vou à sardinha ao mar.

Já vi mar e já vi terras,
Tambem já fui marinheiro,
Ja tive amores de graça,
Agora nem por dinheiro.

Se o mar tivesse janelas,
Como tem embarcações,
Nem Lisboa lhe ganhava
Em certas ocasiões.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Vareira de Espinho


Vareira, minha regateira,
Ouve esta cantiga
Que te vou cantar,
Vareira,
Linda rapariga,
Sereia do mar.

Vareira, minha regateira,
Ai vou ter ciúmes
Da morena areia,
Vareira,
Diz-me os teu queixumes,
Que dor te alanceia.

Vareira, minha regateira,
Minha sedutora,
Rósea concha em flor,
Vareira,
Onda embaladora
De rendas de amor.

Vareira, minha regateira,
Pega na canastra
Vai apregoar.
Vareira,
"Vivinha da costa"...
"É do nosso mar"...

Vareira, minha regateira,
Deixa lá o barco
que anda no mar.
Vareira,
Vem escutar que eu parto
Para não voltar

Vareira, minha regateira,
Ouve quem te abraça
A cantar baixinho.
Vareira,
Cachopa de raça,
Bem filha de Espinho.

de Manuel Laranjeira (neto)
em prosa e verso

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Casa Abatida



António Ferreira Soares *
Nascido em Loureiro de Baixo, em Grijó, a 28 de Janeiro de 1871
Nunca escondeu o amor e paixão que tinha e dedicava à sua Terra Natal, mas também verdade que nutria pela Freguesia de Nogueira da Regedoura uma forte paixão.
Prova cabal que podemos amar mais que uma Terra na qual tenhamos criado raíses.

De familia muito modesta, cedo inciou estudos dirigidos à vida eclesiástica. Era o corrente, nas aldeias, com crianças da sua condição. E não deixava de ser também frequente ao fim de algum tempo os jovens desse modo encaminhados no estudo buscassem novos rumos.
Assim aconteceu com António Ferreira Soares, que fez no Porto o que ao tempo se chamava "repetir os preparatórios" e em 1899 concluía em Coimbra o curso de Direito.
A ciência jurídica não o entusiasmava e quis para si o estatuto de "músico afinado"- o aluno não dava nas vistas por ser bom nem por ser mau. Lia muito, fazia traduções para editoras, escrevia para jornais, versejava, era republicano.
E no seu 4º Ano foi a concurso para professor de liceu- 1ºgrupo, Português e Latim.

Era um conjunto de provas exigentes em que pontificava um mestre de latinidade, Professor Dantas. Prestou as provas com brilho. E concluído o curso de Direito.

No ano seguinte casou em Nogueira da Regedoura (contígua a Grijó) e foi professor do liceu de Viana do Castelo.

No Jornal REPÚBLICA de 4-10-1960, comemorativo dos 50 anos do regime republicano, Rodrigo Abreu evoca os tempos da propaganda naquele distrito e lembra:= Era então professor do Liceu de Viana o escritor e jornalista dr. Ferreira Soares, que em Viana dirigia a politíca republicana com tanta dignidade e talento..................»
e noutro passo:Em 7 de Junho de 1908, tendo como director o dr. António Ferreira Soares, sai o bi semanário O POVO, que desde logo ocupa papel dominante de combate e de doutrina, com uma colaboração verdadeiramente notável onde, além do seu director, jornalista brilhante, doutrinador admirável, prestigioso, colaboram.........»e segue-se uma longa enumeração com nomes como José Caldas, João da Rocha, Augusto Gil, António Granjo, Álvaro de Castro, António José de Almdeida, GUERRA JUNQUEIRO, JOÃO DE BARROS, Pedro Vitorino, Cláudio Basto, D. Ana de Castro Osório e Bruno Sampaio.

Mas Ferreira Soares não descurava a função docente; e pela vida fora a cada passo se lhe dirigiam senhores que em rapazes tinham sido seus alunos e que guardavam do professor uma recordação grata e afectuosa.Com o advento da República teve maneira de descansar um pouco das lides que o assoberbavam e nessa época deu colaboração a vários jornais e revistas - ainda O POVO, a AURORA DO LIMA , à REVISTA LUSA, entre outros.

Pela sua luta contra a Monarquia passou vinte e tal dias na prisão.

GOVERNADOR CIVIL DE VIANA DO CASTELO

Logo após a Monarquia do Norte a qual lhe tinha custado vinte e tal dias na prisão é convidado e aceita ser Governador Civil de Viana do Castelo para evitar perseguições aos monárquicos».

No opúsculo que publicou a seguir - VIANA NA INSURREIÇÃO DE 1919 - a forma literária transcende hoje o interesse, mais local, dos sucessos narrados.
CARGO DE CONSERVADOR DO REGISTO PREDIAL DE SANTA MARIA DA FEIRA

Perante este novo desempenho passa a residir em Nogueira da Regedoura, mas a sorte depressa lhe começa a ser adversa.

Fica viúvo aos 50 anos de idade, passa a residir com os seus 4 filhos.

Vive alguns anos de vida repousada em que as suas funções oficiais não lhe exigem o tempo todo. Passa a viver para os filhos e afeiçoa -se às suas flores e aos seus pinhais, vizinhos de Grijó.

DEDICAÇÃO À LEITURA CONTEMPORANÊA , SEM ABANDONAR OS SEUS CLÁSSICOS COMEÇA ESCREVER O ROMANCE :- CASA ABATIDA

Passa a acompanhar com maior frequência as leituras contemporâneas, sem contudo abandonar os seus clássicos; dá colaboração assídua à revista PORTUCALE, do Porto e a outras publicações; e sem pressa, vai elaborando o romance CASA ABATIDA com o sentido posto no tempo e no lugar em que nasceu.

No seu encantamento pela lingua latina, e para exemplificar a riqueza de seu léxico, mais de uma vez lhe ouvi que em nenhum outro idioma existia palavra para designar o pai que perde o filho. Mas o termo lá estava, no Latim de Cicero: «orbusx» o que perde o olho; e, por extensão, o que perde um filho.....

Por duas vezes veio a sofrer um rude golpe.Tinha tido os desgostos de perder irmãos, de enviuvar.

Mas eram situações que a vida comportava. Agora, não! Indcependentemente das circunstâncias, e para além das circunstâncias, a dor era anti-natural, incomportável. E não encontro onde ele tenha atingido, antes, a eloquência bíblica, viril, com que fulminou céus e terra nesse escabujar.

Em 4 de Julho de 1942 a PIDE/DGS na pessoa do seu filho Dr. António Carlos de Carvalho Ferreira Soares, presenteia-o com o assassinato. resiste e ganha tempo para publicar em 1943 a CASA ABATIDA , que dedica á memória do seu filho.

Quando trabalhava afincadamente para outra obra de tomo - O TROMBUDO- que ia dedicar á memória do seu filho Armando tendo sido também ele médico.

Não acabado por ter falecido em 9 de Janeiro de 1945.


DA LEITURA DA CASA ABATIDA

A cada passo se topam as raízes, muito à vista, quye prendem o autor à sua terra.
«Aldeia emproada e erguida nas tamancas era a de S. Salvador».
abre a narrativa; e só o cendal da fantasia evita que ao nome do padroeiro da terra se siga o topónimo, a completar a designação antigaz - S. Salvador de Grijó.
Mas logo vêm as coordenadas:
«Outra assim não havia do Porto para cá, até onde a estrada real avista a ria de Ovar e desde mar lá-baixo, pouco mais dum légua, até lá-acima ao mar de serras que vêm de riba-Douro e param além absortas.»
Alude-se em seguida ao «título bolorento de couto», que Grijó efectivamente teve, e a
«os vinte lugares de roda ao convento ermo e, à ilharga do convento, a igreja enorme, uma pompa de pedra que ao fundo de amplo terreiro está virada ao pôr do sol».
São depois os sinos todos, com nomes próprios hoje talvez obliterados na memória do próprio povo de Grijó - o Sino-Bento, o Caldeiro, o Pequeno - e é
«aquele Sino Grande de tom grave a retumbar, o Sino Grande de S.Salvador»
cujo clamor
«quando zunia o sul, chegava aos altos da Rechousa quase á vista do Porto; e, com outro vento e a outro lado, ia para além da Malaposta por onde a estrada de Lisboa.»
Nesta identificação de coisas e lugares não se pode esquecer o dado histórico referido ao filho de D. Sancho I cujas cinzas repousam no Mosteiro de Grijó e que ali tem estátua jacente. É aliás um trecho de rara beleza;
«S. Salvador.........tinha musgo de séculos nas pedras do mosteiro e nas do Cruzeiro Velho ali à beira onde caiu e se esvaiu em sangue o neto do primeiro rei afonsim, um D. Rodrigo Sanches.
Se foi em guerra qaue caiu o infante, ou em justa por amores, não vem a limpo nos livros.Lá empoçou de sangue real aquele chão e lá disse o adeus à vida, virado à nesga de céu que ali se encurva. Por sinal, a cerca altissima do mosteiro passa tão rente ao sítio onde o infante acabou, que embarra-lhe com a sombra; e por dentro da cerca, mesmo depois que se foram os frades, ainda ali ficaram corcovadinhos e chegados um ao outro os vultos de dois cedros anciãos com as grenhas pendidas para fora, num cicio de reza à cruz do morto.»
Não será indiscreto referir que esta página, escalando os muros da sua propriedade, terá reforçado o interesse que os Senhores da Quinta do Mosteiro certamente já tinham na conservação da formosa relíquia; pois fizeram substituir estes cedros, quando acabaram, por outros que lá estão, carinhosamente plantados no mesmo sítio.
A PANORÂMICA DE GRIJÓ:«S. Salvador desce de manso a encosta que vem da estrada real em direcção ao poente» e «abrange toda a redondeza desde o Outeiro da Senhora da Saúde (dos Carvalhos, acrescentamos nós) até ao Outeiro de Gesto» (a elevação neste lugar de Moselos, da Feira, mais conhecida por Monte do Murado).
A encosta vem da estrada real em direcção a poente/não havia outra aldeia assim do Porto para cá, até onde a estrada real avista a ria de Ovar - vistas colhidas por uma câmara que só pode estar a sudoeste, onde é Nogueira da Regedoura.
A referência ao Pinheiro das Sete Cruzes, árvore de forca improvisada por invasores franceses à face da estrada logo a seguir a Grijó (e acabada de cair há anos, carcomida): a «sequência» dos carros de bois que começavam a zumbir lá longe, ao passarem nos Vintoito (lugar ainda hoje de feira mensal em Lourosa, alternando com a dos dez) e que à passagem no Picoto já eram inferneira que forçava os carreteiros a falar aos berros, como os homens do mar; as « vizinhas caldas na baixa de S. Jorge onde rasteja o rio Uima» - outros tantos dados referenciais.
E vem o que poderá chamar-se o ex-libris..... do livro, tão mal entendido na capa da 2ª edição:
«Apartado do vaivém, mais abaixo onde a encosta embrandece num conchego de regaço, é que está o mosteiro, de frontaria toda em pedra com musgos encanecidos. Ali no coração da aldeia não se cansa de ver passar as eras, sózinho desde a saída dos Crúzios, e sózinho porque a cerca muito alta sustém a distância de respeito as casas e lugares, dizendo a tudo e a todos: ah-ou, "fasta p´ra trás!
Fugiram os frades todos,Ficou o mosteiro só...»
Escamoteados os dois primeiros versos da cantiga, que é onde nasce a rima:
Atirei com balas d´oiro ao mosteiro de Grijó....
Um dado local exacto, sem disfarce de nomes:
.........em S. Salvador, só num ano, acabaram formatura seis doutores e padres:-dr. da Quinta, o da Zenha, o Rios, o da Fábrica, o Ricardo e padre António das Vendas.»
Sem nada a ver com as pessoas e os sucessos nela postos por fantasia, a Casa das Presas tem um suporte real de reminiscência, um paradigma: a Zenha (açudida agora mesmo na última transcrição), casa ilustre de lavoura a dois passos do sitio onde o autor da narrativa nasceu; por onde passou horas de infância e de juventude; e onde fez amizades que duraram toda a vida (fora da familia ou do âmbito dos condiscípulos só com os Senhores Milheiro, da Casa da Zenha, ouvi algum dia o meu Pai tratar e ser tratado «por tu»).Foi na Zenha que em tempo de quadrilhas de ladrões, a seguir à época conturbada das lutas liberais, se consumou um assalto que perdurou na tradição local. A alusão ao lôbrego acontecimento tem seu quê de narração repetida à lareira muitas vezes:
«.......... nos fudégfeos o moinho velho onde a malta dos ladrões fechou o moço (há quantos anos!) e ele arrancou a tábua do soalho e saltou pelo cabouco mas partiu a perna e teve de ir de-gatinhas rogar quem acudisse (há quantos anos foi isso!)
É claro que as descrições não coincidem. E algumas daquelas águas da Casa das Presas poderão ter sido «canalizadas» da Quinta do Mosteiro ou doutro sítio qualquer, ou terão simplesmente brotado do rico manacial da imaginação do autor.
«Um Bernardes imaginoso e ardente» precisamente lhe chamou João Gaspar Simões no DIÁRIO DE LISBOA de 18-11-43, em larga apreciação que finaliza assim:
«Atrevo-me a considerar esta CASA ABATIDA como uma das obras mais formosamente concebidas e mais famosamente realizadas da nossa moderna literatura. Não me admirava vê-la um dia figurar entre as obras clássicas das letras portuguesas, ainda mesmo que o seu autor não escrevesse mais nada, se não nos ersquecermos de que uma obra para ser clássica não precisa de ser inteiramente perfeita.»
É de notar que só mais tarde o eminente homem de letras veio a saber alguma coisas mais do autor do livro.
Propus-me localizar a história efabulada em CASA ABATIDA, tarefa sem dificuldade: era só escancarar uma porta propositadamente deixada entreaberta.
*Pai do Dr.Antonio Carlos Ferreira Soares (Dr.Prata)